Clima & Investimentos
El Niño 2026–27: o que dizem os dados e o que muda para empresas e investimentos
1. O tamanho do evento
- Segundo a NOAA, agência climática dos EUA, há mais de 83% de chance de um El Niño forte a muito forte até o trimestre janeiro–março de 2027.
- Segundo a OMM, em reportagem de David Stanway, da Reuters, a probabilidade de o fenômeno durar até fevereiro de 2027 é próxima de 100%, com pico em dezembro.
- Para Celeste Saulo, secretária-geral da OMM, este pode ser “um dos mais fortes desde pelo menos 1950”.
O que significa um El Niño “forte” ou “muito forte”?
A intensidade é medida pelo quanto a superfície do Pacífico equatorial fica mais quente do que o normal. A NOAA não tem uma escala oficial, mas a classificação mais usada é esta:
Desde 1950, só três episódios passaram de 2 °C. Veja o que eles e o último El Niño causaram:
- 1982–83muito forte
- Enchente de julho de 1983 em Blumenau e no Vale do Itajaí (SC), a mais longa da história do estado: cerca de 50 mortes e quase 200 mil desalojados em 90 municípios.
- 1997–98muito forte
- Seca severa no Nordeste. Em Roraima, a estiagem somada às queimadas virou um incêndio que consumiu cerca de 12 mil km² de floresta.
- 2015–16muito forte
- O mais intenso já medido até agora (cerca de 2,6 °C). Seca na Amazônia e no Nordeste, e 2016 foi, na época, o ano mais quente já registrado.
- 2023–24forte
- O Rio Negro chegou ao menor nível em 121 anos em Manaus. Em 2024, as enchentes do RS deixaram mais de 170 mortos. Segundo a World Weather Attribution, o El Niño contribuiu para as chuvas, e o aquecimento global dobrou a chance de um evento assim.
O custo econômico também é alto. Segundo estudo de Christopher Callahan e Justin Mankin publicado na revista Science (2023), os episódios de 1982–83 e 1997–98 custaram à economia mundial US$ 4,1 trilhões e US$ 5,7 trilhões, respectivamente, somando as perdas de crescimento dos anos seguintes. Para dar escala: o FMI projetou que a Covid-19 custaria cerca de US$ 22 trilhões ao PIB mundial entre 2020 e 2025.
Por que este deve ser forte a muito forte
é o aquecimento médio do Pacífico previsto pela OMM para out–dez, um recorde. O anterior foi de 2,6 °C, em 2015–16.
é a chance, segundo a NOAA, de out–dez superar qualquer El Niño registrado desde 1950.
- O limite de “muito forte” já foi ultrapassado: no início de agosto, o aquecimento do Pacífico passou de 2 °C, o que não acontecia desde fevereiro de 2016.
- As projeções apontam recorde: os números da OMM e da NOAA no quadro acima.
- O oceano nunca esteve tão quente: segundo Celeste Saulo, da OMM, o fenômeno se forma sobre o oceano mais quente já medido, com mais energia para liberar.
- O pano de fundo é outro: como explica Luiz Barroso, presidente da PSR Consultoria, no podcast do BTG, o planeta está mais quente desde 2023. A cada 1 °C a mais, a atmosfera retém cerca de 7% a mais de umidade, o que amplia secas e chuvas extremas.
2. O que esperar no Brasil (out–dez)
Previsão do boletim conjunto de INMET, INPE, ANA, Cemaden e outros órgãos, divulgado em 01/10:
- Sul
- Chuva acima da média
- Sudeste
- Acima da média em parte da região
- Centro-Oeste
- Abaixo da média em algumas áreas
- Nordeste
- Acima no leste, abaixo em outras áreas
- Norte
- Abaixo da média na maior parte
As temperaturas devem ficar acima do normal em quase todo o país. E, segundo a OMM, o efeito de aquecimento do El Niño costuma ser mais forte no ano seguinte, o que coloca 2027 no radar.
3. Agronegócio: os efeitos já aparecem
Dados do Deral, órgão de economia rural do Paraná (boletim de 15/10):
- Soja: o plantio chegou a 39% dos 5,7 milhões de hectares previstos para a safra no Paraná, mesmo patamar da safra passada. Segundo o analista Edmar Gervasio, os produtores aceleraram o início com receio do El Niño, mas o excesso de chuva em outubro travou a entrada de máquinas.
- Trigo: as chuvas comprometeram a qualidade dos grãos. As lavouras em condição ruim subiram de 7% para 12% em menos de um mês.
E os preços? Segundo pesquisa do Banco Central com cerca de 90 economistas, divulgada em 23/09, o El Niño deve somar 0,3 ponto percentual ao IPCA de 2026 e 0,5 ponto ao de 2027. A Secretaria de Política Econômica, do Ministério da Fazenda, espera a pressão em ondas: primeiro nos alimentos in natura (frutas, legumes e verduras), ainda em 2026; depois nos grãos, com a safra de 2027; e, por fim, nas carnes de frango e porco, pelo custo da ração. No Relatório de Política Monetária de setembro, o BC aponta milho, arroz e algodão como as culturas mais expostas. Na soja, as perdas em alguns estados tendem a ser compensadas por ganhos em outros. No trigo, o Deral informa que o preço subiu 5% em setembro e que a oferta restrita de grão de boa qualidade sustenta as cotações no curto prazo, o que pode chegar à farinha, aos pães e às massas.
4. Energia e infraestrutura
Segundo reportagem de Leticia Fucuchima, da Reuters:
- As hidrelétricas geram cerca de dois terços da energia do país. Em julho, a chuva nas bacias do Sul chegou a 256% da média, segundo o ONS, e os reservatórios da região foram de 30% para 88% da capacidade.
- A CTG antecipou para junho suas medidas contra cheias, e a Engie reforçou seus planos de contingência.
- Fora do Brasil, segundo Barroso, a seca no Canal do Panamá fez a travessia de um navio chegar a US$ 5 milhões.
E os preços? Por enquanto, o El Niño está até ajudando a conta de luz. Depois de cinco meses de bandeira amarela (maio a setembro), a Aneel definiu bandeira verde para outubro, porque as chuvas no Sul e no Sudeste estabilizaram os reservatórios e reduziram o uso de termelétricas, que são mais caras. A alta de quase 8% da energia residencial no IPCA de setembro, segundo o IBGE, veio principalmente do fim do bônus de Itaipu, e não do clima. O risco está no Norte: no El Niño de 2024, a seca reduziu a geração das usinas da Amazônia. Se isso se repetir e as térmicas voltarem a ser acionadas, as bandeiras amarela ou vermelha podem voltar à conta. A bandeira de novembro será anunciada em 30/10. Já o frete mais caro no Canal do Panamá encarece o transporte marítimo e tende a chegar, com defasagem, aos preços de produtos importados.
5. Como as empresas estão se protegendo
Segundo Barroso, há três frentes de resposta:
Obras e reforços, como barragens e estruturas de transporte.
Mudanças na forma de operar, como turnos e processos.
Seguros paramétricos e catastrophe bonds.
No seguro paramétrico, a indenização é paga quando um índice predefinido é atingido, como temperatura ou volume de chuva, sem precisar comprovar um dano. Barroso alerta ainda que o passado deixou de ser referência: as séries históricas de chuva e temperatura já não servem para projetar o futuro, e até as seguradoras têm dificuldade para calcular prêmios.
“Não esperar o risco virar realização para decidir.”
Assistir ao podcast Bridge the Gap
Glossário
- NOAA
- National Oceanic and Atmospheric Administration (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica). Agência do governo dos EUA responsável por meteorologia, clima e oceanos. Seu Centro de Previsão Climática publica os boletins de referência sobre o El Niño.
- OMM
- Organização Meteorológica Mundial (WMO, em inglês). Agência da ONU para tempo, clima e recursos hídricos, com sede em Genebra.
- Cemaden
- Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais. Órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que monitora riscos e emite alertas de desastres naturais no Brasil.
- Deral
- Departamento de Economia Rural da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná. Acompanha o andamento das safras e os preços agrícolas no estado.
Fontes
- BTG Pactual, Bridge the Gap #1, com Luiz Barroso (08/10)
- NOAA, ENSO Diagnostic Discussion (08/10)
- OMM, El Niño/La Niña
- Reuters, David Stanway (08/10)
- Cemaden, Boletim do Painel El Niño nº 04 (01/10)
- Revista Cultivar/Deral (15/10)
- Diário do Comércio, pesquisa do BC com economistas (23/09)
- Mercado & Consumo, Relatório de Política Monetária do BC (24/09)
- Reuters, Leticia Fucuchima (31/07)
- Jornal do Brasil, bandeira de outubro (09/10)
- Diário do Grande ABC, IPCA de setembro
- Climate.gov (NOAA), classificação de intensidade
- Purdue MRCC, episódios históricos
- Weatherzone (ago/2026)
- NSC Total, enchente de 1983
- INPA, incêndio de Roraima
- Canaltech, seca do Rio Negro
- Estudos Avançados (USP), enchentes do RS
- Poder360, estudo da WWA
- Dartmouth, estudo na Science
- Brussels Times, projeção do FMI para a Covid-19
Conteúdo elaborado por Daniel Pinheiro, CFP®, sócio da Union Consultoria de Investimentos, a partir das fontes citadas. Previsões sazonais indicam probabilidades e podem ser revisadas. Material informativo, não constitui recomendação de investimento.